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Em março de 1737, Andrew Michael Ramsay preparava um discurso destinado a uma assembleia geral de maçons em Paris.


Em 1737, um discurso que não chegou a ser lido em Paris deu à Maçonaria uma nova genealogia cavaleiresca e ajudou a redefinir o seu imaginário simbólico.


O texto, porém, não chegou a ser pronunciado nessa ocasião. Entre a desaprovação do Cardeal Fleury e o endurecimento do controlo sobre as reuniões maçónicas, o projeto falhou no plano público. Ainda assim, a Oração sobreviveu: circulou em cópias, foi retomada em várias edições e tornou-se um dos textos mais influentes da Maçonaria europeia do século XVIII. 


Selo circular da Grande Loja Nacional Portuguesa com esquadro, compasso e a letra “G” ao centro, acompanhado da data “2000–2026”.
Selo comemorativo da Grande Loja Nacional Portuguesa, com o esquadro e o compasso, a letra “G” e a inscrição “2000–2026”.

O argumento central


Ramsay propôs uma genealogia mais nobre e mais ampla para a Maçonaria do que a simples derivação das corporações operativas medievais.


No seu discurso, a Ordem surgia ligada às Cruzadas, à arquitetura sagrada, à cavalaria cristã e, em particular, à memória dos cavaleiros de São João de Jerusalém.


A tese não assentava em prova documental sólida no sentido historiográfico moderno, mas isso não lhe retirava eficácia.


O seu valor era sobretudo simbólico: ao inscrever a Maçonaria numa tradição cavaleiresca e espiritual, Ramsay oferecia-lhe uma origem prestigiosa, capaz de seduzir a aristocracia francesa e de elevar o estatuto intelectual e moral da instituição. 


O contexto jacobita


A Oração ganha relevo quando colocada no ambiente político em que surgiu.


Ramsay era jacobita, e a Maçonaria francesa dos anos 1730 conheceu uma presença significativa de exilados ou simpatizantes ligados à causa Stuart. Por isso, vários historiadores leram o discurso também à luz desse contexto: a exaltação da cavalaria, da nobreza e de uma linhagem escocesa da Ordem podia favorecer uma leitura legitimista e dinástica.


Dito isto, convém não exagerar a prova.


É plausível falar de afinidades políticas e de utilidade jacobita; é mais arriscado apresentar a Oração como simples instrumento de cobertura institucional para uma rede política. 


A recusa de Fleury


Ramsay tentou obter o beneplácito do Cardeal Fleury e chegou mesmo a escrever-lhe para defender a utilidade moral, religiosa e literária da Maçonaria.


A resposta foi negativa.


Sabe-se que Fleury recusou apoiar a iniciativa e que, pouco depois, as assembleias maçónicas enfrentaram em França um clima de proibição e vigilância.


É legítimo admitir que razões políticas pesaram nessa recusa, num contexto marcado por suspeitas em torno dos jacobitas e das sociabilidades discretas; mas não é prudente reduzir a decisão de Fleury a uma leitura unívoca. 


O que a Oração produziu


Mesmo sem ter sido pronunciada na assembleia prevista, a Oração de Ramsay difundiu-se amplamente e ofereceu à Maçonaria francesa um novo quadro imaginário.


Nos anos seguintes, multiplicaram-se em França os chamados altos graus, muitos deles de tonalidade cavaleiresca ou escocesa, e é difícil ignorar a afinidade entre esse desenvolvimento e o universo simbólico aberto por Ramsay.


Ainda assim, a relação não deve ser apresentada de forma mecânica. Não há prova de que Ramsay tenha criado diretamente esses graus, e parte da investigação recente lembra que alguns desenvolvimentos dos altos graus podem ter tido outras origens, inclusive fora de França.


O que se pode afirmar com segurança é isto: a Oração forneceu uma linguagem, uma ambição e uma moldura narrativa que vários sistemas posteriores souberam aproveitar. 


A condenação de 1738


Em 1738, Clemente XII publicou a bula In Eminenti, primeira grande condenação pontifícia da Maçonaria.


Alguns autores ligaram essa decisão ao aumento de visibilidade das lojas e ao alarme político-religioso gerado no espaço católico europeu, onde a questão jacobita também pesava.


Há mesmo quem veja no episódio de Ramsay um dos fatores desse ambiente de suspeita.


Mas aqui, mais uma vez, a prudência impõe-se: a relação causal direta entre a Oração e a bula permanece discutida.


O que não está em discussão é que, num intervalo muito curto, a Maçonaria passou de sociabilidade discreta a problema visível para autoridades religiosas e políticas. 


A importância duradoura


A força histórica da Oração de Ramsay reside precisamente nesta tensão: foi um texto que talvez não tenha produzido tudo aquilo que mais tarde lhe atribuíram, mas que certamente alterou o modo como a Maçonaria passou a pensar-se a si própria.


Ao oferecer-lhe uma origem cavaleiresca, uma dignidade moral e uma memória simbólica mais vasta do que a do simples ofício, Ramsay ajudou a abrir um novo horizonte. Mesmo sem ter sido lida publicamente na ocasião para que fora preparada, a Oração tornou-se um dos textos decisivos da cultura maçónica europeia. 




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