- Centro de Estudos Maçónicos

- há 1 dia
- 3 min de leitura
As Jornadas Europeias do Património (JEP), iniciativa conjunta do Conselho da Europa e da Comissão Europeia, voltaram em 2025 a cumprir a sua função mais importante: retirar o património do seu lugar de “fundo” e devolvê-lo ao centro da vida cívica. Não como decoração urbana, mas como matéria de identidade, de memória e de responsabilidade pública — aquilo que permanece quando tudo o resto passa depressa.
Jornadas Europeias do Património 2025: quando o património volta a ter corpo.
A edição de 2025 decorreu entre 12 e 21 de setembro, sob o mote “Património Arquitetónico: Janelas para o Passado, Portas para o Futuro”.
O tema foi, no essencial, um convite a dois movimentos complementares: observar e atravessar.
Observar o que foi construído, o que foi preservado, o que foi perdido; atravessar, com lucidez, a fronteira entre passado e futuro, percebendo que a conservação do património não é uma nostalgia — é uma forma de continuidade e de justiça entre gerações.
Foi neste enquadramento que a Grande Loja Nacional Portuguesa se associou às JEP 2025 com uma iniciativa cultural em Lisboa, concebida como percurso pedonal de dificuldade fácil, seguido de um momento final de convívio e reflexão.
A escolha do formato não foi um detalhe: caminhar é uma forma de leitura. Uma cidade só se torna verdadeiramente legível quando se abranda, quando se volta a medir a escala humana das ruas, quando se olha para a pedra não como “cenário”, mas como arquivo.
Este tipo de participação tem valor precisamente porque não tenta “explicar tudo”. Propõe, antes, um gesto concreto: estar presente, olhar bem, e permitir que o espaço fale.
O património arquitetónico — sobretudo em contextos urbanos intensos — é aquilo que organiza a vida sem pedir licença: define percursos, concentra encontros, estabelece ritmos. E, muitas vezes, é também aquilo que ensina a comunidade a respeitar-se, pelo simples facto de exigir cuidado, atenção e limites.
Uma ligação europeia com utilidade cultural
A dimensão internacional desta iniciativa ganhou relevo ao ser enquadrada numa rede europeia de valorização do património maçónico, através da AAPM (Association Architecture et Patrimoine Maçonniques), sediada em Paris, dedicada à promoção e interpretação arquitetónica, cultural e simbólica desse património.
Importa sublinhar, neste contexto, a ligação institucional: a AAPM integra a GLNP no seu universo de relações e cooperação patrimonial, o que reforça a presença portuguesa num ecossistema europeu onde património, arquitetura e cultura se encontram com método e propósito.
Esta integração é particularmente relevante porque amplia o alcance cultural da GLNP - Grande Loja Nacional Portuguesa para além do calendário nacional, colocando-a em diálogo com práticas, itinerários e linguagens patrimoniais partilhadas em vários países.
A AAPM integra ainda a rota cultural Masonic Architecture and Heritage Routes, vinculada à rede Route33, que atravessa diversos territórios europeus e procura aproximar públicos distintos da história maçónica por via do património construído, do simbolismo e da leitura cultural dos lugares.
Esta dimensão é útil — e concretamente útil — porque traduz a ideia de património em itinerários, interpretação e mediação cultural: não se fica pela afirmação de princípio; cria-se acesso.
Um gesto simples, uma consequência maior
Num tempo em que a vida pública tende a tratar a cultura como conteúdo rápido, as JEP lembraram que o património exige outro ritmo. Exige demora, exige enquadramento, exige o tipo de atenção que já não se compra com facilidade.
Preservar não é apenas “guardar”. É manter critérios: de qualidade, de medida, de memória, de pertença. E é, sobretudo, reconhecer que uma comunidade sem relação com o que a antecede acaba por empobrecer também a forma como imagina o futuro.
Ao associar-se às JEP 2025, a Grande Loja Nacional Portuguesa afirmou um entendimento claro: o património não é uma especialidade de nicho, nem um assunto reservado a especialistas. É um bem comum, e a sua leitura — feita com rigor, com sobriedade e com abertura — pode funcionar como ato de cidadania cultural.








Comentários