top of page

Notícias | Informações

01

PESQUISE

02

LEIA

03

PARTILHE

04

@GLNP

há 3 horas
3 min de leitura

Em 2028, passam novecentos anos sobre a batalha de São Mamede, travada em 1128, junto a Guimarães, entre as forças de D. Afonso Henriques e as de D. Teresa, sua mãe. É a esse episódio que remonta, por convenção, a data que o país se prepara para comemorar como a sua «fundação». A palavra simplifica um processo que não começou nem terminou naquele campo.


Templo Romano de Évora, também conhecido como Templo de Diana
O Templo Romano de Évora, popularmente chamado Templo de Diana, erguido no século I, ladeado por arquitectura religiosa muito posterior: duas camadas de construção no mesmo terreno, a mil e seiscentos anos de distância uma da outra.

A historiografia mais recente tem insistido nessa dificuldade. O historiador André Evangelista Marques recordou-a há dias, numa peça de opinião publicada no Público. São Mamede, Ourique, em 1139, e o tratado de Zamora, em 1143, assinalam momentos decisivos, mas nenhum deles permite fixar o nascimento de Portugal num único acontecimento. Em cada um se afirmou ou consolidou uma pretensão política cuja concretização ainda levaria décadas.


Quando D. Afonso Henriques morreu, meio século depois de São Mamede, o território do reino não ultrapassava, a sul, a linha do Tejo. O país que hoje se projeta retrospetivamente sobre 1128 ainda não existia com as suas fronteiras, comunidades e formas de organização. Foi sendo composto por territórios muito diferentes, desde o Norte senhorial e cristão até ao Sul concelhio, marcado por uma longa presença islâmica. A autoridade régia dependia de pactos, fidelidades, privilégios e equilíbrios locais que mudaram ao longo de várias gerações.


André Evangelista Marques usa a palavra «cimento» para designar aquilo que acabou por ligar esses territórios e comunidades numa entidade política. A imagem é familiar à tradição maçónica. O cimento exige matéria, preparação e trabalho, e a construção portuguesa ocupou muitas mãos que não conheceram o resultado final.


D. Afonso Henriques pertenceu a essa construção, mas a figura do herói já armado, cavaleiro e rei, empunhando sozinho a espada contra o caos, diz mais sobre a memória posterior do que sobre o século XII. No lugar dessa imagem aparece um território ainda instável, onde cada avanço obrigava a novos acordos e onde a obra passava de umas mãos para outras.


A Mensagem, de Fernando Pessoa, patrono deste Centro, termina com «Nevoeiro». Portugal surge ali suspenso, sem ter despertado por inteiro, à espera de uma hora incerta. O poema foi publicado em 1934, mas não trata o passado como uma sucessão encerrada de feitos. As figuras históricas que convoca apontam para alguma coisa que permanece por cumprir.


A proximidade dos novecentos anos de São Mamede devolve essa questão ao presente. As comemorações oficiais precisam de datas, cerimónias e símbolos reconhecíveis. Tendem, por isso, a concentrar num dia e numa personagem aquilo que decorreu durante séculos e envolveu comunidades que pouco se pareciam entre si.


A tradição a que este Centro pertence permite olhar de outro modo para essa data. A fraternidade também não resulta de um decreto ou de um gesto inaugural. Forma-se no trabalho entre pessoas e comunidades, com diferenças, conflitos e compromissos que as narrativas oficiais costumam atenuar.


Comemorar os novecentos anos de São Mamede com honestidade histórica exige reconhecer o tempo dessa construção, a diversidade dos territórios reunidos e tudo o que permaneceu incompleto. Em 2028, a data poderá servir para observar a obra portuguesa tal como chegou até nós, ainda sujeita às mãos de quem nela trabalha.


Centro de Estudos Maçónicos Fernando Pessoa


Comentários


© 1882 - 1996 || 2026, by Grande Loja Nacional Portuguesa

bottom of page